A quem interessa o impeachment de Barroso?

Manifestação política do ministro do Supremo em evento da UNE motiva pedido de impeachment e anima discursos oportunistas em Brasília

No dia 3 de novembro de 2022, Luís Roberto Barroso foi perseguido por uma horda de bolsonaristas quando visitava Porto Belo, em Santa Catarina. O ministro jantava num restaurante com a mulher e um casal de amigos. Ao ser avisado pelo gerente, deixou o local e se refugiou na casa onde estava hospedado. Poucos minutos depois, o grupo chegou ao local. Barroso tentou ignorar o movimento, que foi crescendo até reunir mais de 300 pessoas, que se revezavam entre xingamentos e orações. Sem condições de garantir sua segurança, a Polícia Militar recomendou que o ministro deixasse o estado e ele assim o fez.

É contra esse “bolsonarismo extremista” que Barroso se manifestou ontem em congresso da UNE.  “Utilizei a expressão ‘Derrotamos o Bolsonarismo’, quando na verdade me referia ao extremismo golpista e violento que se manifestou no 8 de janeiro e que corresponde a uma minoria”, explicou, em nota.  “Jamais pretendi ofender os 58 milhões de eleitores do ex-Presidente nem criticar uma visão de mundo conservadora e democrática, que é perfeitamente legítima. Tenho o maior respeito por todos os eleitores e por todos os políticos democratas, sejam eles conservadores, liberais ou progressistas.”

Longe de ser um militante, Barroso é um homem de convicções humanistas e republicanas. Sua manifestação política merece reparo, claro, mas seu ‘mea culpa’ demonstra a disposição em reconhecer um erro e corrigi-lo, algo raríssimo entre autoridades em Brasília, especialmente no Judiciário. O que me chama atenção é o oportunismo de outras autoridades para tentar desgastar a imagem do ministro a poucos meses de assumir a Presidência do Supremo.

Rodrigo Pacheco, por exemplo, dificilmente se manifesta sobre qualquer coisa. Hoje, procurou a imprensa no salão azul para cobrar retratação do ministro, classificando sua fala no evento da UNE como “algo infeliz, inadequado, inoportuno”. A chamativa declaração de Pacheco foi dada poucas horas depois de correr a informação de que a oposição bolsonarista estava disposta a protocolar um pedido de impeachment de Barroso. Vale lembrar que o presidente do Senado arquivou todos os pedidos de impeachment contra ministros do STF, inclusive Alexandre de Moraes, e quase não abriu a CPI da Covid.

A verdade é que há muita gente interessada no desgaste de Barroso. Como já escrevi antes, a disputa pela segunda vaga no STF está tão acirrada que há uma pressão nos bastidores para que se abra uma terceira vaga, após a saída de Rosa Weber, o que só seria possível com a aposentadoria antecipada de algum outro ministro. Há meses, ouço de diferentes interlocutores que Barroso estaria cansado da toga e poderia precipitar sua saída. O próprio ministro já fez questão de desmentir os rumores, mas agora precisa estar mais atento.

Sua gestão no comando do Supremo terá o desafio de baixar a poeira, promovendo a autocontenção e reconduzindo o Judiciário aos seus escaninhos. O congresso da UNE ontem deveria ser um ato de memória história, com uma palestra sobre discurso de ódio, mas virou um duro protesto organizado contra sua posição sobre a aplicação do piso nacional da enfermagem. Para quem sofreu trauma recente, vaias e gritos de ordem podem ser um gatilho emocional e acabar em discursos inflamados, como aconteceu, transformando um evento aparentemente amistoso em armadilha política.

*Esse texto não reflete, necessariamente, a opinião da Jovem Pan.

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