O presidente da Câmara Municipal de São Luís, vereador Paulo Victor, tornou-se personagem central de uma crise que mistura suspeitas de uso político do cargo, crescimento patrimonial acelerado e um embate direto com órgãos de controle. Desde que assumiu a presidência do Legislativo, ele passou a administrar um orçamento estimado em cerca de 15 milhões de reais por mês, o que ampliou sua influência e, ao mesmo tempo, levantou dúvidas sobre a forma como esses recursos vêm sendo conduzidos.
Sob o comando de Paulo Victor, a Câmara passou a ser descrita por críticos como uma Casa marcada por folha de pagamento inflada, contratações consideradas pouco transparentes e distribuição desigual de verbas de gabinete. A percepção é de que a estrutura do Legislativo, em vez de se dedicar prioritariamente à fiscalização do Executivo e à produção de leis, teria sido transformada em instrumento político e também financeiro, com forte concentração de poder nas mãos da presidência.
O crescimento do patrimônio do vereador é um dos pontos mais sensíveis. Em 2020, quando disputou a eleição, ele declarou pouco mais de 100 mil reais em bens. Quatro anos depois, em 2024, o valor informado superou a marca de 2 milhões de reais, o que representa um salto superior a mil por cento em curto espaço de tempo, mesmo considerando a inflação do período. Entre os bens aparecem casa de alto padrão, terreno em município do interior, motocicleta de luxo e valores em contas e aplicações, cenário que, segundo especialistas, é difícil de compatibilizar apenas com a remuneração típica de um vereador.
As suspeitas sobre o manejo de recursos públicos e o avanço patrimonial motivaram investigações conduzidas por grupos especializados do Ministério Público, com foco principalmente no uso de emendas parlamentares e em contratos ligados à Câmara. Em determinado momento, chegaram a ser solicitadas medidas duras, como prisão preventiva, bloqueio de bens e buscas em endereços ligados ao parlamentar. Decisões do Tribunal de Justiça, porém, suspenderam procedimentos, trancaram inquéritos e impediram a adoção de parte dessas ações, o que alimentou a sensação de que o sistema de Justiça funcionou mais como freio do que como acelerador das apurações.
A crise ganhou contornos ainda mais graves quando Paulo Victor, em discurso público, afirmou ter concedido cargos e salários na Câmara a familiares de um promotor com o objetivo de evitar investigações. A fala foi interpretada como uma confissão de prática de troca de favores envolvendo a máquina pública. Em reação, o vereador passou a acusar o membro do Ministério Público de extorsão, enquanto a defesa do promotor afirma que as mensagens usadas no episódio foram retiradas de contexto e serviram para inverter a narrativa. O caso deu origem a um processo disciplinar e a um período de afastamento do promotor, mas o procedimento tramita sob sigilo e ainda não produziu um desfecho definitivo.
Enquanto o processo disciplinar se arrasta e as investigações criminais permanecem travadas, Paulo Victor se mantém no comando da Câmara, exibe novo padrão de vida e articula voos mais altos na política, com o objetivo declarado de disputar uma vaga de deputado estadual em 2026. Para parte da sociedade civil, o tempo passou a funcionar como aliado da impunidade, já que denúncias graves continuam sem resposta concreta, seja na esfera judicial ou administrativa. Diante desse cenário, cresce a avaliação de que o verdadeiro julgamento sobre o uso do cargo, o enriquecimento acelerado e a relação com órgãos de controle não acontecerá apenas nos tribunais, mas principalmente nas urnas, quando os eleitores decidirão se premiam ou não esse histórico com uma nova promoção política.